16 de abril de 2008

Vampiros do tanque

Mesmo com toda a tecnologia, fiscalizar e investigar qualquer suspeita ainda são a melhor prevenção contra o desvio de combustível

As transportadoras ainda não encontraram uma tecnologia 100% eficiente para combater o desvio de combustíveis. Mesmo com todos os aparatos eletrônicos do século 21, a melhor prevenção ainda é fiscalizar e investigar qualquer suspeita. Não é para menos. Empresários contam que existem alguns motoristas que agem de forma ilícita e lucram com esse negócio. Eles abastecem os caminhões em um posto de combustível clandestino para pagar mais barato e pedem notas fiscais com valores mais altos. Muitas vezes, também revendem o diesel para outros estabelecimentos. De acordo com executivos, isso causa transtornos às transportadoras, a começar por um prejuízo de 10% sobre o valor do frete.

A preocupação com o consumo é freqüente entre as transportadoras, principalmente porque o diesel é o insumo de maior valor em uma frota. Para reduzir o gasto de combustível, as empresas investem cada vez mais em treinamentos de motoristas e em tecnologias embarcadas, capazes de mostrar se o condutor do caminhão está cumprindo a meta. Mas nenhuma dessas alternativas é totalmente eficaz quando o assunto é desvio de combustível. Há casos de motoristas de caminhão-tanque que compactuam com os criminosos e driblam a segurança.
Quando o caminhão-tanque sai da garagem da transportadora, as bocas do reservatório são lacradas, por isso é difícil roubar o diesel. Porém, não é impossível. O comum é ele descarregar a carga no posto e deixar um restinho no tanque. “O responsável pelo estabelecimento tem a obrigação de verificar se sobrou algum líquido na carroceria e, antes de receber o produto, examinar os lacres e tirar uma amostra para verificar se houve adulteração”, diz Sérgio Luiz Niemxeski, gerente geral da Tropical, transportadora da distribuidora Ipiranga. Pode parecer pouco, mas cada litro desviado realimenta o desejo de consumo do criminoso. Segundo Niemxeski, se o motorista conseguir desviar 200 litros de combustível por dia, terá uma “renda” diária de cerca de 400 reais. “Para quem tem um salário de 1500 reais mensais, é um negócio tentador”, afirma.
Para monitorar a frota e, de quebra, combater desvios, já existem no mercado sistemas eficientes, como o Controle Total de Frotas (CTF), que gerencia os abastecimentos dos caminhões sem nenhuma interferência humana. “Nossos clientes têm uma redução considerável de gastos administrativos e com os veículos, porque o sistema fornece dados confiáveis para o abastecimento”, diz Martha Schulz Sena, gerente nacional de Vendas da CTF Technologies do Brasil. Tecnologias como essa, entretanto, não são 100% seguras quando “agem” sozinhas. É preciso ter um acompanhamento rígido em todo o processo de transporte. “Não existe e nunca existirá um produto que controle absolutamente a fraude”, afirma Fernando Carvalho, diretor-presidente da Repom, empresa que desenvolve soluções logísticas. Segundo Carvalho, exitem processos que diminuem bastante essa possibilidade. Um bom gerenciamento, por exemplo, vai proporcionar um resultado mais confiável do que qualquer equipamento disponível no mercado. “Pode se unir os dois, mas nunca ter apenas um gerenciamento sem tecnologia e uma tecnologia sem gestão eficiente”, diz Carvalho.

Consumo Padrão
Dona de um controle de frotas bastante ágil, a Itapemirim Cargas não deixa espaço para o desperdício de diesel. A empresa possui abastecimento interno, ou seja, os caminhões só param nas filiais da transportadora. Os motoristas dirigem apenas oito horas por dia, no máximo 500 quilômetros. “Trocamos nossos funcionários a cada ponto de apoio. Isso impede que exista qualquer desvio”, afirma Márcio De Lucca, diretor operacional da Itapemirim. A empresa também adota uma série de procedimentos para tirar o máximo de proveito da condução, como premiar os motoristas que mostram bom desempenho ­ consumo ideal e preservação dos equipamentos.

Se o desempenho estiver fora dos padrões, investiga- se aquele que nunca cumpre a média da empresa. Segundo De Lucca, todos os funcionários têm um controle de consumo por trecho de estrada. Além disso, instrutores vão ao encontro deles em determinados lugares para examinar o disco do tacógrafo. “Eles sempre trafegam pelos trajetos da empresa e verificam qual é a média ideal por trechos específicos. Se o motorista não alcançar um resultado similar, nós investigamos imediatamente o caso”, diz De Lucca. Esses funcionários também orientam e fazem relatórios sobre as condições das estradas. Às vezes, o consumo em determinado local pode mudar porque aquela parte da rodovia piorou, exigindo mais potência do caminhão e, conseqüentemente, mais gastos com componentes. Nesse caso, a nova condição estará registrada no documento dos instrutores. “Nós também temos o relatório diário de média de combustível. A melhor forma de fazer gestão de pessoas é aliar a tecnologia ao olhar crítico dos gestores”, afirma De Lucca.
A Itapemirim adotou esses procedimentos há alguns anos e ainda registra reduções de custos por conta deles. Desde então, a queda no consumo chegou a 10%. “Por isso, também investimos em treinamento para nossos motoristas duas vezes por ano e utilizamos rastreamento via satélite. Outra tática é cobrar bom desempenho sempre”, diz De Lucca.

Distrações, nunca
Não são apenas motoristas os responsáveis por desviar combustível. Existem casos em que eles são roubados em postos de parada, enquanto descansam. A Ramos Transportes registra roubos de óleo diesel pelo menos uma vez a cada dois meses. Quando os caminhões ficam parados nas barreiras fiscais, nas divisas entre estados, permanecem no local por mais de dez horas aguardando a liberação. Nesse espaço de tempo, os ladrões agem. “Sempre registramos roubos de 20 a 30 litros, furto de pneus e outros componentes. Os gatunos aproveitam um único momento de distração para agir”, afirma Tibério Ramos, gerente nacional de tráfego da empresa.
Para evitar o envolvimento de motoristas com a prática do desvio, a Ramos adota seleção rígida na hora de contratar. Os gestores de frota predeterminam os pontos de paradas para abastecimento do veículo e descanso do condutor. “Monitoramos o consumo de combustível no dia-a-dia. Quando algum funcionário não cumpre a meta, sem um motivo justo, o afastamos da função e abrimos uma investigação”, diz Ramos. Se ele gastar 140 litros num percurso que deveria utilizar 100, a empresa busca a causa do consumo excessivo imediatamente. “Pode ser que o caminhão esteja precisando de manutenção. Nem sempre é culpa dele”, afirma o gerente da Ramos.

Rigor, sempre
Para empresas como a DM, cujos caminhões trafegam fora do país (Argentina e Uruguai), o controle fica mais complicado. “O óleo diesel custa 1 real mais barato na Argentina. É interessante para o usuário revendê-lo mais caro no Brasil”, diz José Leonardo Reichett, gerente de manutenção da transportadora. Não há como estabelecer um controle quando também se depende de postos localizados fora da fronteira, pois o sistema não é integrado. “Se o motorista quiser abastecer 300 litros e disser que colocou somente 200, ele consegue”, afirma Reichett.
Para detectar ações ilícitas, a DM faz um controle de média, utiliza computador de bordo e dispõe de monitoramentos rigorosos em toda a frota, mas não consegue combater totalmente a fraude. “Fazemos a medição com uma régua escalonada nos tanques em todos os pontos de chegada. Com isso, verificamos quais são os motoristas que estão consumindo a quantidade esperada”, diz Reichett. Segundo o gerente da DM, para combater o desvio é preciso trabalhar com postos de abastecimentos confiáveis, ter sistemas de controle de rota, não consumir combustível adulterado, investir em treinamentos e sempre reavaliar o quadro de pessoas envolvidas com a operação de transporte.

Mangueiras e baldes
A sede pelo combustível alheio envolve desde quadrilhas de roubo de cargas até motoristas e receptadores responsáveis pela compra da mercadoria. Usam-se postos clandestinos e pessoas munidas de mangueira e baldes ­ que se aproveitam do descanso do caminhoneiro. Recentemente, a Polícia Federal prendeu uma quadrilha acusada de roubar 150 000 litros de combustíveis por mês, causando um prejuízo de 1,5 milhão de reais às distribuidoras no Rio Grande do Norte e no Ceará.
No primeiro trimestre deste ano, só no estado de São Paulo, foram registrados 43 roubos de caminhões que transportavam combustíveis, principalmente nas estradas que ligam a capital ao interior. O prejuízo foi de 1,6 milhão de reais em carga roubada. Em todo o ano passado, foram 138 casos, num total de 6,6 milhões de reais. É essa gente que está de olho nos seus tanques.

Boca fechada
Dicas para evitar o desvio de combustível :
- Seleção rigorosa de funcionários
- Adoção de processos eficientes de gestão de frota
- Implantação de sistemas modernos de rastreamento de cargas
- Medição diária do desempenho dos motoristas
- Bloqueadores físicos do tanque e sistemas informatizados de abastecimento
- Fiscalização do veículo durante a viagem
- Treinamentos constantes de condução econômica
- Premiação de motoristas que atingem o consumo ideal de combustível
- Utilização de computador de bordo e tacógrafo
- Abastecimento apenas em postos conhecidos


Fonte: Quatro Rodas

A Rich Representações recomenda o uso dos anti-furtos Algemax da Flamma para evitar a retirada clandestina de combusível dos tanques.

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